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Crítica | “Que Horas Ela Volta?” é o melhor filme brasileiro em muitos anos

Por: Litoral 24 horas 23/09/2015 13:17

Crítica | “Que Horas Ela Volta?” é o melhor filme brasileiro em muitos anos

Em determinado momento de “Que Horas Ela Volta?”, Bárbara (Karine Teles), socialite que vive no Morumbi, em São Paulo, ironiza: “O país está mesmo mudando”. A reação foi após ouvir a filha da empregada falar sobre o sonho de cursar Arquitetura. Como se alguém oriundo de uma classe social menos favorecida não pudesse sonhar e alcançar objetivos. Tal cena talvez seja a única em que o filme deixa de lado sua sutileza para tomar uma posição política mais declarada. Um risco tomado pela cineasta Anna Muylaert em tempos que parecemos viver um grande “8 ou 80” no Brasil e poderia lhe custar alguns expectadores mais radicais.

Mas o longa, que encantou os festivais de Berlim e Sundance, arrebatando prêmios em ambos, e surge como principal aposta, após anos, do cinema nacional para o Oscar de Filme em Língua Estrangeira, transcende qualquer discussão xiita-político-partidiária. E justifica o encantamento dos estrangeiros para a produção que traz Regina Casé na pele de Val: pernambucana que deixou a terra-natal em destino a São Paulo para tentar proporcionar uma vida mais digna a sua filha Jéssica.

Desde então, trabalha na mesma casa há anos, tendo criado o filho do casal formado por Teles e Lourenço Mutarelli. O dia a dia é o mesmo: Pai, mãe e filho emendam: “Val, traz o sorvete”. “Val, pode retirar”. “Val, faz isso, faz aquilo”. Nessas horas a lembrança da animação “Wall-E” se fez presente. No longa da Pixar, os humanos chegam a um ponto de acomodação tão grande que se tornam dependentes dos sistemas automáticos da nave: são incapazes de se levantar sozinhos, ou de se locomover sem auxílio de aparelhos especiais. Além disso, tornam-se tão passivos que são incapazes de reconhecer e analisar o mundo à sua volta – e também de se relacionar com as outras pessoas. No filme brasileiro, Val precisa ser discreta ao olhar dos donos, mas prestativa em tudo que faz. A relação hierárquica e de subserviência tornou-se tão automática que jamais é questionada, até a chegada da adolescente.

O status quo da mansão é colocado de cabeça para baixo quando Jéssica decide ir á capital paulista prestar o vestibular na FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e, na falta de onde ficar, se hospeda na casa dos patrões de sua mãe. Acontece que Jéssica é parte de outra geração. Ao contrário de mãe, que cresceu num mundo onde a subserviência era encarada de maneira “normal”, a adolescente teve um professor que a instigou a ir além, a enxergar o mundo de forma diferente, a romper certos padrões.

E é nesse sentido que o filme é de uma simplicidade genial absurda. Quando Val diz que a filha é metida, nos deparamos com algo que pode ser identificado por tantas pessoas que cresceram em famílias humildes, e que por alguma razão, eram ou são vistas como diferentes, “metidas”, justamente pela busca de algo maior, a realização de um sonho, e não se render ante a mesmice, preconceitos e certas “verdades absolutas”.

O filme, porém, não é apenas sobre diferenças sociais ou de gerações. É sobre alienação. A alienação da mãe que não sabe o que o filho sente. A alienação da família na mesa de jantar onde cada um está mergulhado em seu próprio telefone celular. Do sujeito que herdou uma grana do pai e, vivendo uma vida vazia, pensa estar apaixonado pela adolescente.

E é especialmente sobre mães e filhos. Se a busca por melhores condições para a criação de Jéssica custou a Val a proximidade sentimental da filha, por outro lado, Bárbara – e atenção que é spoiler – decide enviar o filho para um intercâmbio de seis meses após constatar que o garoto é mais íntimo de Val do que dela. Uma forma de “compensar” a ausência distanciando-o agora geograficamente também.

Todas as situações, cada diálogo, cada momento de tristeza, alegria ou humor, são filmados com sensibilidade. Já a forma como a câmera acompanha os cômodos, a escada, o vai e vem na mansão, corroboram a sensação de distância, desencontro e isolamento, especialmente da família.

O elenco, por sua vez, colabora para que tudo saia à perfeição. Regina Casé tem uma atuação fantástica, capaz de fazer até quem não gosta dela enquanto apresentadora televisiva dar o braço a torcer: no sotaque, no jeito curvado de andar, no olhar. Camila Márdila, por sua vez, é um fio condutor de energia que encarna Jéssica com paixão. Para ficarmos de olho nessa jovem atriz, que promete. Karine Telles surge correta no papel de dona da casa que se diz afeiçoada por Val, mas que não pensa duas vezes em mandar limpar a piscina só por que Jéssica mergulhou nela. Um retrato perfeito de uma burguesia – que não representa todas as pessoas bem sucedidas financeiramente, obviamente não podemos generalizar - que não se conforma em ver a ascensão de quem não tinha chance. E Lourenço Mutarelli acerta no tom do sujeito que tem dinheiro, é infeliz no casamento e carrega certa frustração.

“O Som ao Redor”, filme de 2013 dirigido por Kleber Mendonça Filho, ganhou manchetes e prêmios internacionais ao traçar um retrato impiedoso da classe média – no caso, a recifense. Sucesso de crítica e público. No entanto, sua narrativa fragmentada (o que não é um defeito) o impediu de ir além. Agora, “Que Horas Ela Volta?” transcende e mostra a relação entre classes a partir do cotidiano de uma casa no Morumbi. Só que tem narrativa linear e uma estrela que conduz firme e forte a história. Fatores que possibilitam alcançar ainda mais pessoas. Digno, sensível, inteligente, bem humorado na dose certa, merece toda a repercussão que tem alcançado.
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